Na tarde de 16 de setembro o Mestre regressou à Prospectiva e muitos foram os que se reuniram à sua volta para escutar e absorver a sabedoria de quem já viveu uma vida muito longa. Os que estão há mais anos na Prospectiva, recordaram-no com saudade. Os que são mais novos na empresa tiverem oportunidade de conhecer pessoalmente José Spínola, o Mestre do Gabinete de Projeto da Prospectiva. Quando entrou na empresa tinha pouco mais de 50 anos. Saiu a 31 de dezembro de 2011 com quase 80. Oito anos depois visitou-nos e passou uma tarde connosco…

Os risos e as recordações começaram no segundo piso das instalações da Prospectiva, mas rapidamente desceram as escadas e percorreram todos os corredores e gabinetes da empresa. Era dali que palavras e histórias se sucediam umas atrás das outras, tentadoras e saborosas como cerejas. “Estava uma mesa ali, ao pé da janela, e era ali que eu ficava”, lembra-se José Spínola com saudade. Por entre uma pausa para mudar o tema da conversa, e com aquele brilho característico de quem tem os olhos marejados de lágrimas, José Spínola admitiu “ganhei tantas raízes aqui”

O anúncio “Desenhador precisa-se- Prospectiva”.  cruzou-se no caminho de José Spínola nos idos anos 80, algures numa “livraria de letreiro grande”, localizada no Rossio. Estava então reformado do Estado, onde tinha exercido a profissão de desenhador, mas um “dinheiro extra dava jeito para pôr os filhos a estudarem”, relembrou “Enviei currículo para a Prospectiva”, recorda José Spínola, “e sabes quantos anos fiquei nessa Prospectiva? Mais de 25.”

Foi desenhador na Prospectiva e “homem de toda a obra”, recordam os colegas que com ele trabalhavam no Gabinete de Projeto. Estava sempre disposto a ajudar e nunca negava serviço. Um dia pediram-lhe para construir um armário. “Eu nunca tinha construído um armário”, admitiu. Na altura até chegou a ficar preocupado com o facto de não estar à altura para responder ao caricato pedido. Mesmo assim, não desanimou e aceitou o desafio. Conta-se que a perfeição demorou o seu tempo, mas que o resultado foi surpreendente. Ao descrever a história do armário, um sorriso desenhou-se no rosto do desenhador. Fez uma pausa, como que para ter a certeza de que a memória não lhe estava a pregar uma partida, e depois confessou “Acho que foi nessa altura que começaram a chamar-me de Mestre”.

Foi com um sorriso travesso de menino traquina que recordou que “gostava muito de carros”. “Estava sempre disponível para estacionar os da Prospectiva”, revelou. Também gostava muito de motas e ainda chegou a adquirir uma vespa por “seis contos de reis” .Porém, na véspera do exame de mota sofreu um acidente. “Já não fui ao exame, vendi a mota e, com o dinheiro, comprei uma máquina de coser para a minha esposa”. “Motas nunca mais” declarou.

Os colegas com quem trabalhou iam mostrando as fotografias dos filhos que José Spínola conheceu bebés. “Estão crescidinhos” ia dizendo perante a imagem dos homens e mulheres que viu pela última vez ainda meninos-

Foi tão doce a tarde de 16 de setembro, repleta de memórias felizes e encantos bons, a recordar tempos longínquos em que projetos de arquitetura custavam “18 contos e 20 contos” e em que “não havia trânsito na ponte 25 de abril”. “Mas do que tenho mais saudades é das pessoas” confessa José Spínola. Para a Prospectiva, em particular para o Gabinete de Projeto, José Spínola será para sempre o seu querido Mestre…